INSTRUÇÃO GERAL

SOBRE A LITURGIA DAS HORAS

 

CAPITULO III

 

ELEMENTOS CONSTITUTIVOS

DA LITURGIA DAS HORAS

 

I. OS SALMOS E A SUA RELAÇÃO COM A ORAÇÃO CRISTÃ

 

100. Na Liturgia das Horas, a Igreja utiliza, em grande parte, para sua oração aqueles belíssimos hinos que, sob a inspiração do Espírito Santo, foram compostos pelos autores sagrados do Antigo Testamento. Por sua própria origem, os salmos possuem, de fato, a virtude de elevar para Deus o espírito dos homens, de excitar neles santos e piedosos afetos, de os ajudar admiravelmente a dar graças na prosperidade, de os consolar e robustecer na adversidade.

 

101. Todavia, os salmos não encerram mais que uma sombra daquela plenitude dos tempos que se revelou em Cristo Senhor e da qual tira a oração da Igreja todo o seu valor. Por esse motivo, não admira que, apesar da elevada estima em que os salmos são tidos por todos os cristãos, surjam por vezes certas dificuldades quando alguém pretende fazer seus estes poemas venerandos, servindo-se deles para orar.

 

102. Porém, o Espírito Santo, que inspirou os salmistas a cantá-los, não deixa nunca de assistir com a sua graça aqueles que, animados de fé e boa vontade, salmodiam estes sagrados hinos. Além disso, é necessário que todos, na medida das suas forças, procurem «adquirir uma formação bíblica o mais rica possível, sobretudo quanto aos salmos»1, e aprendam também a maneira de fazer da salmodia sua oração pessoal.

 

103. Os salmos nem são leituras nem orações em prosa, mas poemas de louvor. Por isso, embora admitindo que às vezes tenham sido recitados em forma de leitura, todavia, dado o seu gênero literário, com razão são designados em hebraico pelo termo Tehillim, quer dizer, «cânticos de louvor”, e em grego psalmói, ou seja «cânticos acompanhados ao som do saltério». De fato, todos os salmos possuem um certo caráter musical, que determina o modo como devem ser executados. E assim, mesmo quando o salmo é recitado sem canto, ou até individualmente ou em silêncio, a sua recitação terá de conservar este caráter musical. Apresentando embora um texto ao nosso espírito, ele visa principalmente a excitar os corações dos que os salmodiam ou escutam, e mesmo dos que os acompanham «ao som do saltério e da cítara».

 

104. Aquele que salmodia sabiamente irá percorrendo versículo a versículo, meditando um após outro, de coração sempre pronto a responder como o quer o Espírito que inspirou o salmista e assistirá igualmente os homens piedosos que estão dispostos a receber a sua graça. Eis o motivo por que a salmodia, conquanto reclame a reverência devida à majestade divina, deve desenrolar-se na alegria do coração e doçura da caridade, como convém à poesia sacra e ao canto divino e sobretudo à liberdade dos filhos de Deus.

 

105. As palavras dos salmos ajudam-nos muitas vezes a orar com mais facilidade e fervor, quer dando graças e glorificando a Deus na exaltação, quer suplicando desde as profundezas da nossa angústia. Mas também pode por vezes acontecer — mormente quando o salmo não fala diretamente a Deus — que surja uma ou outra dificuldade. É que o salmista, como poeta que é, umas vezes dirige-se ao povo a recordar-lhe a história de Israel; outras vezes, são outros que ele interpela, inclusive as próprias criaturas irracionais; outras ainda, introduz a falar Deus e os homens, ou até, como no salmo segundo, os próprios inimigos de Deus. Donde se infere que o salmo constitui um tipo de oração muito diferente de uma prece ou de uma coleta de composição eclesiástica. Além disso, a natureza poética e musical dos salmos não implica que se dirijam necessariamente a Deus, mas sim que sejam cantados na presença de Deus, como adverte S. Bento: «Consideremos a maneira como havemos de estar na presença da Divindade e dos seus Anjos; e, ao salmodiar, guardemos uma atitude tal que o nosso espírito concorde com a nossa voz»2.

 

106. Aquele que salmodia abre o coração aos sentimentos que o salmo inspira, consoante o gênero literário de cada um deles: canto de lamentação, de confiança, de ação de graças, etc., gêneros a que os exegetas costumam dar justo relevo.

 

107. Atendo-se ao sentido literal dos salmos, aquele que os salmodia procurará relacionar o texto com a vida humana dos crentes.

Cada salmo, como é sabido, foi composto em determinadas circunstâncias a que os próprios títulos do saltério hebraico fazem alusão. Seja qual for, porém, a sua origem histórica, cada salmo tem um sentido literal que, mesmo em nossos dias, não podemos menosprezar. E, se bem que estes poemas tenham nascido no Oriente, há muitos séculos, eles traduzem de forma adequada a dor e a esperança, a miséria e a confiança dos homens de todos os tempos e regiões; cantam sobretudo a fé em Deus, bem como a revelação e a redenção.

 

108. Na Liturgia das Horas, quem salmodia não o faz tanto em seu próprio nome como em nome de todo o Corpo Místico de Cristo, e até na pessoa do próprio Cristo. Se tivermos isto em conta, desaparecem as dificuldades que possam surgir para quem salmodia, caso os seus sentimentos íntimos se sintam em desacordo com os afetos expressos num salmo. Por exemplo: quando a uma pessoa triste e angustiada se depara um salmo de jubilação, ou, ao contrário, quando a alguém que se sente feliz aparece um salmo de lamentação. No caso da oração estritamente privada, esta discordância pode evitar-se, uma vez que pode escolher um salmo mais condizente com os sentimentos pessoais. No caso, porém, do Ofício divino, a salmodia não tem caráter privado, mesmo que alguém recite as Horas sozinho; o ciclo dos salmos, oficialmente estabelecido, é recitado em nome da Igreja. Ora, salmodiando em nome da Igreja, podem-se encontrar sempre motivos de alegria ou de tristeza, pois aqui tem aplicação a palavra do Apóstolo: «Alegrar-se com os que se alegram, chorar com os que choram» (Rom 12,1).

Deste modo, a fragilidade humana, ferida pelo amor próprio, recupera a saúde pela caridade que faz com que o espírito concorde com a voz de quem salmodia.3

 

109. Quem salmodia em nome da Igreja deverá captar o sentido pleno dos salmos, particularmente o sentido messiânico, pois foi este o que levou a Igreja a adotar o Saltério. Este sentido messiânico aparece-nos em toda a sua clareza no Novo Testamento, e o próprio Cristo Senhor o apontou expressamente aos Apóstolos quando lhes disse: «É preciso que se cumpra tudo quanto está escrito a meu respeito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos» (Lc 24,44). Exemplo conhecidíssimo deste sentido messiânico, temo-lo naquele diálogo referido por S. Mateus a respeito do Messias, Filho de David e seu Senhor,4 em que o salmo 109 é aplicado ao Messias.

Nesta mesma ordem de ideias, os Santos Padres admitiram e explicaram todo o Saltério como profecia referente a Cristo e à Igreja. E é dentro deste mesmo critério que os salmos têm sido utilizados na sagrada Liturgia. E, se bem que, por vezes, se tenham aceitado interpretações algo retorcidas, no geral, é legítima a interpretação quer dos Padres quer da Liturgia, que nos salmos ouviram Cristo a clamar ao Pai ou o Pai a dirigir-se ao Filho, ou reconhecem neles até a voz da Igreja, dos Apóstolos e dos Mártires. Este método de interpretação também floresceu durante a Idade Média. De fato, numerosos códices do Saltério escritos nesta época, no título anteposto a cada salmo era apontado, para uso dos que os rezavam, o sentido cristológico. Esta interpretação cristológica não se restringiu unicamente aos salmos considerados messiânicos, mas estendia-se a muitos outros casos, num sentido acomodatício é certo, mas aceite pela tradição da Igreja.

Na salmodia dos dias festivos, de modo particular, foi o sentido cristológico que presidiu à escolha dos salmos. Este sentido é com frequência posto em relevo nas antífonas, tiradas dos mesmos salmos.

 

II. ANTÍFONAS E OUTROS ELEMENTOS QUE

AJUDAM A ORAÇÃO DOS SALMOS

 

110. Três elementos, dentro da tradição latina, muito contribuem para a inteligência dos salmos ou para fazer deles oração cristã: os títulos, as orações sálmicas e, principalmente, as antífonas.

 

111. No Saltério da Liturgia das Horas, cada salmo é precedido dum título, a indicar o sentido do mesmo salmo e o seu valor para a vida humana do crente. Estes títulos, no livro da Liturgia das Horas, visam unicamente à utilidade de quem salmodia. Para facilitar a oração à luz da Revelação nova, acrescenta-se uma sentença tirada do Novo Testamento ou dos Padres, a qual serve como de convite a rezar o salmo no sentido cristológico.

 

112. As coletas salmódicas ajudam a quem recita os salmos os entendê-los num sentido predominantemente cristão. Estas coletas vêm no Suplemento ao livro da Liturgia das Horas, uma para cada salmo. Podem-se utilizar livremente, de acordo com a antiga tradição, da seguinte maneira: terminado o salmo, após uns momentos de silêncio, reza-se a coleta, como que a resumir os afetos de quem salmodia e a concluir a oração.

 

113. Cada salmo é acompanhado da respectiva antífona, mesmo quando a Liturgia das Horas se celebre sem canto, inclusive na recitação individual. As antífonas servem para tornar mais claro o gênero literário do salmo; transformam o salmo em oração pessoal; põem em relevo esta ou aquela sentença digna de particular atenção e que doutro modo passaria despercebida; dão ao salmo um colorido especial, em harmonia com as circunstâncias em que é utilizado; ajudam muito a interpretar o salmo num sentido tipológico conforme as festas, desde que se excluam acomodações arbitrárias; finalmente, contribuem para tornar a recitação dos salmos mais agradável e variada.

 

114. As antífonas do Saltério foram compostas de modo a poderem ser traduzidas em língua vernácula e poderem também repetir-se após cada estrofe, segundo o que se diz no n. 125. No Ofício do Tempo Comum, quando não for cantado, as antífonas podem-se substituir pelas sentenças antepostas aos salmos (cf. n. 111).

 

115. Quando, pela sua extensão, um salmo se dividir em várias secções, dentro da mesma Hora canônica, cada uma destas secções é acompanhada da respectiva antífona, para dar uma nota de variedade, principalmente na celebração com canto, e também para ajudar a apreender melhor as riquezas do salmo. Todavia pode-se recitar o salmo todo seguido sem interrupção, só com a primeira antífona.

 

116. O Tríduo Pascal, os dias dentro das oitavas da Páscoa e do Natal, os domingos do tempo do Advento, do Natal, da Quaresma e da Páscoa, os dias da Semana Santa e do Tempo Pascal e os dias 17 a 24 de Dezembro têm antífonas próprias para cada salmo nas Laudes e nas Vésperas.

 

117. Nas solenidades, propõem-se antífonas próprias para o Ofício das Leituras, Laudes, Oração das Nove, das Doze e das Quinze Horas e Vésperas; na sua falta tomam-se do respectivo Comum. Nas festas, o mesmo acontece para o Ofício das Leituras, Laudes e Vésperas.

 

118. Se alguma memória dos Santos tiver antífonas próprias, observam-se (cf. n. 235).

 

119. As antífonas do Benedictus e do Magnificat, no Ofício do Tempo, tomam-se do Próprio do Tempo, se as tiver; aliás, do Saltério corrente. Nas solenidades e festas, tomam-se do Próprio, se as tiver; aliás, do respectivo Comum. Nas memórias que não tiverem antífona própria, diz-se, à escolha, ou a do Comum ou a do dia de semana corrente.

 

120. No Tempo Pascal, junta-se Aleluia a todas as antífonas, salvo se não se harmonizar com o sentido das mesmas.

 

III. MANEIRA DE SALMODIAR

 

121. Para mais facilmente se poder sentir a fragrância espiritual e literária dos salmos, estes podem-se recitar de diferentes maneiras, de acordo com o gênero literário ou a extensão de cada um, conforme a recitação é feita em latim ou em vernáculo, e principalmente consoante o modo de celebração, quer dizer, se é feita por um só, por vários ou com o povo reunido em assembleia. É que (na Liturgia das Horas) os salmos não se empregam como se fossem uma determinada quantidade de oração, mas sim tendo em vista a variedade e as características peculiares de cada salmo.

 

122. No canto ou recitação dos salmos, podem adotar-se diversas modalidades confirmadas pela tradição ou pela experiência: ou tudo seguido (in directum), ou alternando os versículos ou as estrofes, quer entre dois coros quer entre duas partes da assembleia, ou ainda em forma responsorial.

 

123. No princípio de cada salmo, dir-se-á sempre a respectiva antífona, como ficou dito acima, nn. 113-120. No final do salmo inteiro, concluir-se-á, como é habitual, com o Glória ao Pai e Como era. O Glória ao Pai é uma conclusão tradicional muito apropriada, pois vem dar à oração do Antigo Testamento um sentido laudativo, cristológico e trinitário. Terminado o salmo, se parecer melhor, pode-se repetir a antífona.

 

124. Os salmos mais extensos vêm no Saltério divididos em várias secções. Estas divisões da salmodia em vários membros são feitas de molde a esboçar a estrutura ternária da Hora, embora respeitando estritamente o sentido objetivo de cada salmo.

Convém, principalmente na celebração coral, marcar estas divisões, intercalando o Glória ao Pai no fim de cada secção.

É permitido, no entanto, ou seguir este modo tradicional, ou fazer uma pausa entre as diferentes secções do salmo, ou ainda recitar o salmo inteiro com a respectiva antífona.

 

125. Quando o gênero literário assim o aconselha, indica-se a divisão dos salmos em estrofes. Isto permite executá-los com intercalação da antífona depois de cada estrofe, sobretudo quando são cantados em língua vernácula. Neste caso, bastará dizer o Glória ao Pai no fim do salmo todo.

 

IV. CRITÉRIO SEGUIDO NA DISTRIBUIÇÃO

DOS SALMOS NO OFÍCIO

 

126. Os salmos estão distribuídos por um ciclo de quatro semanas. Omitem-se alguns salmos, muito poucos. Outros, que a tradição tornou mais conhecidos, repetem-se com mais frequência. Além disso, para os ofícios das Laudes e Vésperas, foram escolhidos salmos a condizer com a respectiva Hora.5

 

127. Como Laudes e Vésperas se destinam mais particularmente à celebração com o povo, foram escolhidos para estas Horas salmos que se prestam melhor a este modo de celebração.

 

128. Para Completas seguiu-se a norma indicada no n. 88.

 

129. Para o domingo, inclusive no Ofício das Leituras e na Hora Média, foram escolhidos aqueles salmos que, segundo a tradição, melhor traduzem o mistério pascal. Para a sexta-feira, escolheram-se os salmos penitenciais ou

relacionados com a Paixão.

 

130. Os salmos 77, 104 e 105, em que mais claramente nos é revelada a história da salvação através do Antigo Testamento, como prenúncio do que viria a acontecer no Novo, reservam-se para o tempo do Advento, do Natal, da Quaresma e da Páscoa.

131. Os três salmos 57, 82 e 108, em que predomina o caráter imprecatório, foram suprimidos do ciclo do Saltério. Foram igualmente suprimidos certos versículos dalguns outros salmos, como se indica no princípio do salmo respectivo. A omissão destes textos foi motivada por uma certa dificuldade de ordem psicológica, muito embora os próprios salmos imprecatórios figurem na piedade do Novo Testamento, p. ex., em Ap 6,10, sem que de maneira alguma pretendam induzir a maldição.

 

132. Os salmos demasiado extensos, para poderem caber dentro de uma só Hora do Ofício, são distribuídos por vários dias, a essa mesma Hora, de modo a poderem ser recitados integralmente por aqueles que não costumam dizer outras Horas. É o que se dá com o salmo 118, que é distribuído por vinte e dois dias, tantos quantas as suas divisões, na Hora Média, pois a tradição atribuiu

sempre este salmo às horas diurnas.

 

133. O ciclo das quatro semanas do Saltério articula-se com o ano litúrgico da seguinte maneira: a primeira semana (omitindo eventualmente as outras) começa no primeiro domingo do Advento, na primeira semana do Tempo Comum, no primeiro domingo da Quaresma e no primeiro domingo da Páscoa.

No Tempo Comum, o ciclo do Saltério segue a série das semanas. Por isso, depois do Pentecostes, retoma-se a semana do Saltério indicada no Próprio do Tempo, no princípio da respectiva semana do Tempo Comum.

 

134. Nas solenidades e festas, no Tríduo Pascal, nos dias dentro das oitavas da Páscoa e do Natal, o Ofício das Leituras tem salmos próprios, escolhidos de entre aqueles que tradicionalmente lhes costumam ser atribuídos. A sua congruência é posta em relevo, geralmente pela antífona. O mesmo se faz para a Hora Média em certas solenidades do Senhor e na oitava da Páscoa. Nas Laudes, dizem-se os salmos e o cântico indicados no Saltério para o primeiro domingo. Nas primeiras Vésperas das solenidades, dizem-se os salmos da série Laudate, segundo o antigo costume. Nas segundas Vésperas das solenidades e nas Vésperas das festas, os salmos e o cântico são próprios. Na Hora Média das solenidades, com exceção daquelas de que se falou acima e salvo se caírem ao domingo, os salmos são tirados dos chamados «salmos graduais». Na Hora Média das festas, dizem-se os salmos do dia de semana corrente.

 

135. Nos outros casos, dizem-se os salmos do ciclo do Saltério, a não ser que haja antífonas ou salmos próprios.

 

V. CÂNTICOS DO ANTIGO E DO NOVO TESTAMENTO

 

136. Nas Laudes, entre o primeiro e o segundo salmo, insere-se um cântico tirado, segundo o costume, do Antigo Testamento. As duas séries de cânticos — a da antiga tradição romana e a introduzida no Breviário por S. Pio X — foram aumentadas, no novo Saltério, com outros cânticos tirados de vários livros do Antigo Testamento. Deste modo, cada dia da semana tem seu cântico próprio nas quatro semanas. Aos domingos, dizem-se alternadamente as duas partes do cântico dos três jovens.

 

137. Nas Vésperas, a seguir aos dois salmos, insere-se um cântico do Novo Testamento, tirado ou das Epístolas ou do Apocalipse. São sete estes cânticos, um para cada dia da semana. Nos domingos da Quaresma, em vez do cântico aleluiático do Apocalipse, diz-se o da primeira Epístola de S. Pedro. Além disso, na solenidade da Epifania e na festa da Transfiguração do Senhor, diz-se o cântico indicado no lugar próprio, tirado da primeira Epístola a Timóteo.

 

138. Os cânticos evangélicos — Benedictus, Magnificat, Nunc dimíttis — são acompanhados da mesma solenidade com que é costume ouvir a proclamação do Evangelho.

 

139. No ordenamento quer da salmodia quer das leituras, segue-se esta regra tradicional: primeiro o Antigo Testamento, a seguir o Apóstolo, finalmente o Evangelho.

 

VI. LEITURA DA SAGRADA ESCRITURA

 

a) Leitura da Sagrada Escritura em geral

 

140. A leitura da Sagrada Escritura que, segundo a antiga tradição, é feita publicamente na Liturgia, quer na celebração eucarística quer no Ofício divino, deve ser tida na maior estima por todos os cristãos. Esta leitura não é escolhida segundo um critério individual nem para satisfazer tal ou tal inclinação do espírito; é proposta pela Igreja em ordem ao mistério que a Esposa de Cristo «vai desenrolando através do ciclo anual, desde a Encarnação e Nascimento até à Ascensão, dia do Pentecostes e expectação da feliz esperança e vinda do Senhor»6. Além disso, na celebração litúrgica, a

leitura da Sagrada Escritura vem sempre acompanhada da oração, de modo que a leitura produza mais abundante fruto e, por seu lado, a oração, mormente a dos salmos com a leitura se apreenda melhor e se torne mais fervorosa.

 

141. Na Liturgia das Horas, apresentam-se duas espécies de leituras  da Sagrada Escritura: uma longa, outra breve.

 

142. Da leitura longa, facultativa nas Laudes e nas Vésperas, já se falou acima, n. 46.

 

b ) Ciclo de leituras da Sagrada Escritura no Ofício das Leituras

 

143. No ciclo das leituras da Sagrada Escritura para o Ofício das Leituras, teve-se em conta quer os tempos sagrados em que a tradição manda ler determinados livros quer o ciclo das leituras da Missa. Assim, a Liturgia das Horas combina-se com a Missa, de forma que a leitura da Sagrada Escritura no

Ofício venha completar a que se faz na Missa. Deste modo, ter-se-á uma visão geral da história da salvação.

 

144. Salva a exceção referida no n. 73, na Liturgia das Horas não se lê o Evangelho, uma vez que é lido integralmente todos os anos na Missa.

 

145. Há um duplo ciclo de leituras bíblicas: o primeiro abrange um ano só, e é o que vem no livro da Liturgia das Horas; o segundo, facultativo, é bienal, como o ciclo ferial «per annum» das leituras da Missa, e vem no Suplemento.

 

146. O ciclo bienal das leituras está organizado por forma a lerem-se em cada ano quase todos os livros da Sagrada Escritura, reservando para a Liturgia das Horas os textos mais extensos ou mais difíceis que não é possível ler na Missa. O Novo Testamento é lido integralmente todos os anos, parte na Missa, parte na Liturgia das Horas. Quanto aos livros do Antigo Testamento, foram escolhidas aquelas partes que têm maior importância quer para compreender a

história da salvação quer para alimentar a piedade.

As leituras da Liturgia das Horas e as da Missa combinam-se entre si de maneira a evitar a repetição dos mesmos textos no mesmo dia ou a fixação dos mesmos livros nos mesmos tempos litúrgicos, o que viria a deixar para a Liturgia das Horas as perícopes menos importantes e a alterar a ordem dos textos. Isto exige necessariamente que o mesmo livro seja lido, alternadamente, um ano na Missa, outro ano na Liturgia das Horas; ou pelo menos, quando se tenha de ler (duas vezes) no mesmo ano, decorra um certo intervalo de tempo entre uma leitura e outra.

 

147. No Tempo do Advento, de acordo com a antiga tradição, lêem-se perícopes do livro de Isaías, em forma de leitura semi-contínua, em anos alternados. A esta leitura, junta-se também o livro de Rute e algumas profecias do profeta Miqueias. Os dias 17 a 24 de Dezembro têm leituras especiais, deixando de parte as leituras da terceira semana do Advento que não tiverem lugar.

 

148. Do dia 29 de Dezembro a 5 de Janeiro, lê-se: no primeiro ano, a Epístola aos Colossenses, onde a Encarnação do Senhor nos é apresentada dentro do contexto geral da história da salvação; no segundo ano, lê-se o Cântico dos Cânticos, no qual é prefigurada a união de Deus e do homem em Cristo: «Deus Pai celebrou as bodas de Deus Filho quando O uniu à natureza humana no seio da Virgem, quando Deus, que é antes dos séculos, Se quis fazer homem no fim dos séculos»7.

 

149. De 7 de Janeiro ao sábado depois da Epifania, lêem-se os textos escatológicos do livro de Isaías (60-66) e do livro de Baruc. As leituras que não tenham lugar nesse ano, omitem-se.

 

150. Durante a Quaresma, no primeiro ano lêem-se extratos do livro do Deuteronômio e da Epístola aos Hebreus. No segundo ano, apresenta-se uma visão global da história da salvação, com textos escolhidos dos livros do Êxodo, Levítico e Números. Na Epístola aos Hebreus, é interpretada a antiga aliança à luz do mistério pascal de Cristo. Desta Epístola é tirada a leitura da Sexta-feira da Paixão (Sexta-feira Santa), referente ao sacrifício de Cristo (9, 11-28), e a do Sábado Santo, referente ao repouso do Senhor (4, 1-16). Nos outros dias da Semana Santa, lêem-se: no primeiro ano, os cantos terceiro e quarto do Servo do Senhor, tirados do livro de Isaías, e perícopes do livro das Lamentações; no segundo ano, o profeta Jeremias como figura de Cristo sofredor.

 

151. No Tempo Pascal, com exceção do primeiro e segundo domingo da Páscoa e as solenidades da Ascensão e do Pentecostes, lêem-se, de acordo com a tradição: no primeiro ano, a primeira Epístola de S. Pedro, o livro do Apocalipse e as Epístolas de S. João; no segundo ano, os Atos dos Apóstolos.

 

152. Da segunda-feira a seguir ao domingo do Batismo do Senhor até à Quaresma, e da segunda-feira depois do Pentecostes até ao Advento, tem lugar a série contínua das 34 semanas do Tempo Comum.

Esta série é interrompida desde a Quarta-feira de Cinzas até ao domingo do Pentecostes. Na segunda-feira a seguir ao domingo do Pentecostes, retoma-se a leitura do Tempo Comum, a contar da semana seguinte àquela em que foi interrompida pela Quaresma, omitindo a leitura marcada para o domingo.

Nos anos em que há somente 33 semanas do Tempo Comum, omite-se a semana que viria logo a seguir ao Pentecostes, de modo a ficar sempre com as leituras das últimas semanas, de caráter escatológico.

Os livros do Antigo Testamento estão distribuídos seguindo a história da salvação: Deus revela-Se ao longo da vida do povo: este vai sendo conduzido e iluminado por fases sucessivas. Consequentemente, os livros dos profetas são lidos com os livros históricos, inseridos no tempo em que os mesmos profetas viveram e ensinaram. E assim, no primeiro ano, a série das leituras do Antigo Testamento apresenta simultaneamente os livros históricos e os oráculos dos profetas desde o livro de Josué até ao tempo do exílio. No segundo ano, depois do livro do Gênesis que se lê antes da Quaresma, retoma-se a história da salvação a partir do exílio até à época dos Macabeus. Neste ano, inserem-se os profetas mais recentes, os livros sapienciais e as narrativas dos livros de Ester, Tobias e Judite.

As Epístolas dos Apóstolos que não são lidas em tempos litúrgicos especiais são distribuídas tendo em conta, por um lado, o ciclo das leituras da Missa, por outro, a ordem cronológica em que foram escritas.

 

153. O ciclo de um só ano foi abreviado, de tal modo que se leiam todos os anos perícopes seletas da Sagrada Escritura, combinando-as com o duplo ciclo das leituras da Missa, de que são o complemento.

 

154. As solenidades e festas têm leituras próprias; se não, tomam-se do Comum dos Santos.

 

155. Cada perícope, tanto quanto possível, mantém certa unidade. Por isso, e para não ir além de uma extensão razoável, aliás variável consoante o gênero literário de cada livro, omitem-se aqui ou além alguns versículos, omissão esta que vai sempre indicada. Pode-se, porém, e é mesmo louvável, fazer uma leitura integral, utilizando para isso um texto aprovado.

 

c) Leituras breves

 

156. As leituras breves ou «capítulos», cuja importância na Liturgia das Horas já foi apontada no n. 45, foram escolhidas de modo a expressar um pensamento ou uma exortação em forma concisa e clara. Procurou-se, além do mais, a variedade.

 

157. Neste sentido, organizaram-se quatro séries semanais de leituras breves para o Tempo Comum, que vêm no Saltério. Assim, durante quatro semanas, a leitura breve é todos os dias diferente. Há também séries semanais de leituras

breves para os tempos do Advento, Natal, Quaresma e Páscoa; e ainda leituras breves próprias para as solenidades e festas e algumas memórias, mais uma série de uma semana para Completas.

 

158. Na escolha das leituras breves seguiram-se estes critérios:

a) excluíram-se os Evangelhos, como é de tradição;

b) atendeu-se, na medida do possível, ao caráter peculiar do domingo, da sexta-feira e das próprias Horas;

c) as leituras das Vésperas, como vêm a seguir a um cântico do Novo Testamento, são tiradas exclusivamente do Novo Testamento.

 

VII. LEITURAS DOS PADRES E

ESCRITORES ECLESIÁSTICOS

 

159. Segundo a tradição da Igreja Romana, no Ofício da Leitura, à leitura bíblica segue-se outra tirada dos Padres ou dos Escritores eclesiásticos, com seu responsório, a não ser quando haja uma leitura hagiográfica (cf. nn. 228-239).

 

160. Nesta leitura são apresentados extratos das obras dos Padres, Doutores da Igreja e outros Escritores eclesiásticos, pertencentes tanto à Igreja Ocidental como Oriental, dando preferência aos Padres que na Igreja gozam de particular autoridade.

 

161. Além das leituras indicadas para cada dia no livro da Liturgia das Horas, há também um Lecionário facultativo com maior abundância de leituras, para facultar mais largamente aos que recitam o Ofício divino os tesouros da Tradição da Igreja. É deixada à liberdade de cada um a escolha da segunda leitura, tomando-a ou do livro da Liturgia das Horas ou do Lecionário facultativo.

 

162. Além disso, as Conferências Episcopais podem apresentar outros textos acomodados à tradição e mentalidade dos respectivos países. Estes textos deverão figurar num apêndice ao Lecionário facultativo. Devem ser tirados das

obras de Escritores católicos insignes por sua doutrina e santidade de vida.8

 

163. A função principal das leituras (na Liturgia das Horas) é meditar a palavra de Deus tal como a tradição da Igreja entende. Pois a Igreja julgou sempre necessário explicar aos fiéis, de forma autêntica, a palavra de Deus, de modo que «a linha da interpretação profética e apostólica se mantenha sempre dentro da norma no sentido eclesiástico e católico»9.

 

164. Pelo contato assíduo com os documentos que a Tradição universal da Igreja nos apresenta, os leitores são conduzidos a meditar mais profundamente a Escritura Sagrada, a sentir-lhe a suavidade, a amá-la com vivo afeto. Efetivamente, os escritos dos Padres são testemunhos esplêndidos dessa meditação da palavra de Deus, prolongada através dos séculos, mediante a qual a Igreja, Esposa do Verbo Encarnado, «depositária do desígnio e do espírito do seu Esposo e seu Deus»10, se esforça por adquirir uma inteligência cada vez mais profunda das Escrituras Sagradas.

 

165. A leitura dos Padres introduz também os cristãos no sentido dos tempos e festas litúrgicas. Além disso, abre-lhes igualmente o acesso às inestimáveis riquezas espirituais que constituem o magnífico patrimônio da Igreja e são base da vida espiritual e alimento riquíssimo da piedade. Por sua vez, os pregadores da palavra de Deus têm à sua disposição, diariamente, excelentes modelos de pregação sagrada.

 

VIII. LEITURAS HAGIOGRÁFICAS

 

166. Diz-se leitura hagiográfica, quer o texto dalgum Padre ou Escritor eclesiástico que fala expressamente do Santo celebrado ou a ele se pode muito bem aplicar, quer algum trecho tirado dos escritos do mesmo Santo, quer ainda a sua biografia.

 

167. Na elaboração dos Próprios dos Santos particulares, deve-se respeitar a verdade histórica 11 e ter em conta o verdadeiro proveito espiritual de quem lê ou ouve a leitura hagiográfica. Evitar-se-á cuidadosamente tudo aquilo que serve apenas para suscitar a admiração. Em contrapartida, pôr-se-á em relevo a espiritualidade peculiar dos Santos, de forma adequada às condições atuais, sublinhando ao mesmo tempo a sua importância na vida e na espiritualidade da

Igreja.

 

168. Antes da leitura propriamente dita, insere-se uma breve nota biográfica, com alguns apontamentos de caráter puramente histórico e resumo da sua vida. Esta nota tem uma finalidade meramente informativa, e, como tal, não é para ser lida na celebração.

 

IX . RESPONSÓRIOS

 

169. A leitura bíblica, no Ofício das Leituras, é seguida do respectivo responsório, cujo texto é tirado do tesouro da tradição ou é uma composição original. A finalidade do responsório é projetar sobre a leitura precedente nova luz que ajude a compreendê-la melhor, enquadrar esta leitura na história da salvação, estabelecer a transição do Antigo para o Novo Testamento, fazer que a leitura se transforme em oração e contemplação, finalmente imprimir, com sua beleza poética, uma nota de agradável variedade.

 

170. A segunda leitura é, como a primeira, seguida também dum responsório apropriado. Mas este já não tem uma ligação tão estreita com o texto da leitura, e por isso favorece mais a liberdade da meditação.

 

171. Assim, os responsórios, com o respectivo refrão, mantêm o seu valor mesmo na recitação individual. Nesta, porém, pode não se repetir o refrão, a não ser que o sentido o exija.

 

172. Numa forma análoga, mas simplificada, o responsório breve nas Laudes, Vésperas e Completas (de que já se falou acima, nn. 49 e 89), e os versículos da Oração das Nove, das Doze e das Quinze Horas, constituem uma resposta à leitura breve, à maneira de aclamação. A sua finalidade é fazer penetrar mais profundamente a palavra de Deus no espírito do ouvinte ou do leitor.

 

X. HINOS E OUTROS CÂNTICOS NÃO-BÍBLICOS

 

173. Os hinos, no Ofício, vêm já duma antiquíssima tradição, e ainda hoje nele mantêm o seu lugar.12 Dada a sua natureza lírica, estão particularmente destinados ao louvor divino, constituindo ao mesmo tempo um elemento popular. Além disso, mais que os outros elementos do Ofício, marcam logo de entrada a característica peculiar de cada Hora ou de cada festa, movendo e animando as almas a uma piedosa celebração. Esta eficácia é acrescida com freqüência pela beleza literária. Finalmente, os hinos são, no Ofício, o elemento poético mais importante de criação eclesiástica.

 

174. O hino termina tradicionalmente com uma doxologia, que, normalmente, é dirigida à mesma Pessoa divina a quem se dirige o hino.

 

175. Para maior variedade, no Ofício do Tempo Comum instituiu-se uma dupla série de hinos para todas as Horas, a recitar em semanas alternadas.

 

176. Além disso, para o Ofício das Leituras, também se introduziu, no Tempo Comum, uma dupla série de hinos, para serem recitados consoante os casos, ou de dia ou de noite.

 

177. Os hinos novos podem ser cantados com as melodias tradicionais do mesmo ritmo e métrica.

 

178. Quanto à celebração em língua vernácula, compete às Conferências Episcopais, não só adaptar à índole peculiar de cada língua os hinos latinos, como também introduzir novas composições hínicas,13 desde que se harmonizem perfeitamente com o espírito da Hora, do tempo litúrgico ou da festa. Evitar-se-á, porém, com todo o cuidado, a adoção de canções populares, que não possuam autêntico valor artístico ou não condigam com a dignidade da Liturgia.

 

XI. PRECES, ORAÇÃO DOMINICAL,

ORAÇÃO CONCLUSIVA

 

a ) Preces ou intercessões nas Laudes e nas Vésperas

 

179. A Liturgia das Horas celebra os louvores de Deus. Todavia, nem a tradição judaica nem a tradição cristã separa o louvor divino da oração de súplica; e até, não raro, fazem esta derivar daquele. O apóstolo Paulo recomenda que se façam «preces, orações, súplicas e ações de graças por todos os homens, pelos reis e por todas as autoridades, para que possamos levar uma vida tranquila e pacífica, com toda a piedade e dignidade. Isto é bom e agradável aos olhos de Deus, nosso Salvador, pois Ele quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade” (1 Tim. 2, 1-4). Esta recomendação, não raro os Padres a interpretam como devendo fazer-se essas intercessões pela manhã e ao fim da tarde.14

 

180. As intercessões, agora restauradas na Missa do rito romano, fazem-se igualmente nas Vésperas, embora de forma diferente, como adiante se descreve.

 

181. É também tradicional encomendar logo pela manhã a Deus o dia inteiro. Por isso, nas Laudes, fazem-se invocações para encomendar e consagrar o dia inteiro ao Senhor.

 

182. Pelo nome de «preces» são designadas tanto as intercessões das Vésperas como as invocações das Laudes para consagrar o dia a Deus.

 

183. Para maior variedade, mas sobretudo para expressar melhor as diferentes necessidades da Igreja e dos homens, segundo os diversos estados, assembleias, pessoas, condições e tempos, propõem-se formulários de preces diferentes para cada dia do ciclo do Saltério, bem como para os diferentes tempos do ano litúrgico e para algumas celebrações festivas.

 

184. Além disso, as Conferências Episcopais podem adaptar os formulários que vêm no livro da Liturgia das Horas ou aprovar outros novos,15 em conformidade com as normas a seguir indicadas.

 

185. Tal como na oração dominical, também nas preces se há de unir à súplica o louvor de Deus ou proclamação da sua glória, ou a memória da história da salvação.

 

186. Nas preces das Vésperas, a última intenção será sempre pelos defuntos.

 

187. A Liturgia das Horas é principalmente oração de toda a Igreja a favor de toda a Igreja, e ainda pela salvação do mundo inteiro.16 Neste sentido, as intenções de caráter universal virão, nas preces, logo em primeiro lugar. Nelas se pedirá pela Igreja com suas diversas ordens, pelas autoridades civis, pelos que sofrem oprimidos pela pobreza, doença ou infelicidade, pelas necessidades do mundo inteiro, tais como a paz e outras intenções análogas.

 

188. Tanto nas Laudes como nas Vésperas, podem-se acrescentar algumas intenções particulares.

 

189. As preces do Ofício são estruturadas de modo a poderem-se adaptar quer à celebração com o povo, quer à celebração numa pequena comunidade, quer à recitação individual.

 

190. Na recitação com o povo ou em comum, as preces são introduzidas por uma breve admonição feita pelo sacerdote ou ministro. Nesta admonição, enuncia-se já a resposta, invariável, que a assembleia deverá repetir.

 

191. As intenções são dirigidas diretamente a Deus. Deste modo, tanto podem servir para a celebração comunitária como para a recitação individual.

 

192. Cada fórmula de intenção consta de duas partes, podendo a segunda servir de resposta variável.

 

193. Assim, podem-se usar diferentes maneiras: dizer o sacerdote ou ministro as duas partes da fórmula, e a assembléia responder com o refrão invariável ou fazer uma pausa de silêncio; ou então dizer o sacerdote ou ministro só a primeira parte da fórmula, e a assembleia responder com a segunda parte.

 

b) Oração dominical

 

194. Nas Laudes e nas Vésperas, que são as Horas mais particularmente destinadas à celebração com o povo, a seguir às preces, de acordo com uma venerável tradição, recita-se, pela sua especial dignidade, a oração dominical.

 

195. Doravante, portanto, a oração dominical dir-se-á três vezes ao dia: na Missa, nas Laudes e nas Vésperas.

 

196. O Pai Nosso é recitado por todos em conjunto, podendo, se se considerar oportuno, ser introduzido por uma breve exortação.

 

c) Oração conclusiva

 

197. No fim da Hora, diz-se, para terminar, a oração conclusiva. Na celebração pública e com povo, é ao sacerdote ou diácono que pertence, tradicionalmente, recitar esta oração.17

 

198. Esta oração, no Ofício das Leituras, é, por via de regra, a mesma da Missa. Em Completas, diz-se sempre a que vem no Saltério.

 

199. Nas Laudes e nas Vésperas, aos domingos, nos dias de semana do tempo do Advento, do Natal, da Quaresma e da Páscoa, nas solenidades, festas e memórias, a oração conclusiva é tomada do Próprio. Nos dias de semana do Tempo Comum, para exprimir o caráter próprio destas Horas, diz-se a que vem indicada no ciclo do Saltério.

 

200. Na Oração das Nove, das Doze e das Quinze Horas, ou Hora Média, aos Domingos, nos dias de semana do tempo do Advento, do Natal, da Quaresma e da Páscoa, nas solenidades e festas, a oração conclusiva toma-se do Próprio. Nos outros dias, dizem-se as orações que vêm no Saltério, as quais traduzem a índole característica de cada uma destas Horas.

 

XII. SILÊNCIO SAGRADO

 

201. Geralmente, em todas as celebrações litúrgicas se há de procurar «guardar, nos momentos próprios, um silêncio sagrado»18. Consequentemente, na celebração da Liturgia das Horas, facultar-se-á também a possibilidade de uns momentos de silêncio.

 

202. E assim, conforme as conveniências e a prudência aconselharem, seguindo o costume dos nossos maiores, poder-se-á introduzir uma pausa de silêncio após cada salmo, depois de repetida a antífona, mormente quando, a seguir ao salmo, se disser uma coleta salmódica (cf. n. 112); ou ainda após as leituras, breves ou longas, antes ou depois do responsório. Este momento de silêncio visa obter a plena ressonância da voz do Espírito Santo nos corações e

unir mais estreitamente a oração pessoal à palavra de Deus e à oração oficial da Igreja.

Cuidar-se-á, porém, que o silêncio não venha alterar a estrutura do Ofício ou causar aos que nele participam mal-estar ou enfado.

 

203. Na recitação individual, é deixada mais ampla liberdade quanto a estas pausas, com o fim de meditar alguma fórmula susceptível de estimular afetos espirituais, sem que por isso o Ofício perca o seu caráter de oração pública.

 

NOTAS:

1 Conc. Vat. II, Const. sobre a Sagrada Liturgia, Sacrosanctum Concilium, n. 90.

2 Regula monasteriorum, c. 19.

3 Cf. S. Bento, Regula monasteriorum, c. 19.

4 Mt 22, 44 ss.

5 Cf. Conc. Vat. II, Const. Sacrosanctum Concilium, n. 91.

6 Conc. Vat. II, Const. Sacrosanctum Concilium, n. 102.

7 S. Gregório Magno, Homilia 34 in Evangelia: PG 76, 1282.

8 Cf. Conc. V II, Const. Sacrosanctum Concilium, n. 38.

9 S. Vicente de Lerins, Commonitorium, 2: PL 50, 640.

10 S. Bernardo, Sermo 3 in Vigilia Nativitatis 1: PL 183 (ed. 1879), 94.

11 Cf. Conc. Vat. II, Const. Sacrosanctum Concilium, n. 92 c.

12 Cf. Conc. Vat. II, Const. Sacrosanctum Concilium, n. 93.

13 Cf. Conc Vat. II, Const. Sacrosanctum Concilium, n. 38.

14 Assim, p. ex., S. João Crisóstomo, In Epist. ad Tim. 1, Homilia 6: PG 62, 530.

15 Cf. Conc. Vat. II, Const. Sacrosanctum Concilium, n. 38

16 Cf. Ibid., nn. 83 e 89.

17 Cf. infra, n. 256.

18 Conc. Vat. II, Const. Sacrosanctum Concilium, n. 30.

 

CAPÍTULO I - Importância da Liturgia das Horas ou Ofício Divino na Vida da Igreja.

CAPÍTULO II - Santificação do dia: As diversas Horas Litúrgicas.

CAPÍTULO IV - Diferentes celebrações no decurso do Ano Litúrgico.

CAPÍTULO V - Ritos a Observar na Celebração Comunitária.